Escracho ao Pondé

Ato realizado no dia 20 de setembro de 2013 pela Frente de Mulheres da PUC-Campinas em razão da palestra do Pondé sobre “O Politicamente Correto”, na Semana Jurídica realizada pelo Centro Acadêmico de Direto XVI de Abril.

O CAXVI de Abril convidou Pondé especialmente pelas polêmicas do colunista da Folha onde destila constantemente seu desprezo e ódio pelo movimento feminista e lgttb. As estudantes de direito desta universidade se juntando com a Frente de Mulheres da PUC-Campinas encheram o auditório do evento e protestaram contra as declarações de Pondé e a postura do CAXVI de Abril, conseguindo espaço de fala na mesa de exposição.

Carta redigida pela Frente de Mulheres, incorporada e publicada pelo DCE

Nota do Diretório Central dos Estudantes da PUC-Campinas sobre escracho ao Pondé

“Machistas, homofóbicos e preconceituosos não passarão!Meu corpo, minhas regras!”

Nesse último final de semana o DCE em reunião com a gestão que inclui alunos do Direito da PUCC , apontou como fator convergente a crítica à atual gestão – Inovação – do Centro Acadêmico XVI de Abril da faculdade de Direito, pela escolha do nome do filósofo Luiz Felipe Pondé, colunista do jornal Folha de S. Paulo, como membro unitário na composição de uma das mesas da Semana Jurídica, na qual debateria “O Politicamente Correto nas relações Jurídicas”. Tal crítica vem aqui ser elencada não apenas para questionar sua presença, mas principalmente pela forma como o assunto seria abordado. Explica-se: por entendemos que o espaço não tinha como finalidade mostrar um debate aberto aos estudantes, no qual os pontos de vista da mesa fossem problematizados por outras pessoas, posto não haver proposta de representatividade do outro lado do debate para compor mesa. Assim, a ideia de colocar um palestrante para reproduzir conteúdos machistas sem que esses assuntos sejam problematizados, reproduz a lógica machista a qual lutamos tanto para mudar. Vale deixar claro que, quanto ao referido contraditório, se não fosse pela intervenção das mulheres dentro desse espaço, não haveria tamanha repercussão e debate frente ao assunto, ou seja, a pluralidade e contraponto de ideais e conceitos foi colocada pelas mulheres, e não pelo palestrante, muito menos pelo centro acadêmico.

O colunista, segundo sua própria coluna semanal, é “filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap”, porém, mesmo tendo tantas qualificações acadêmicas, ainda assim, em seus artigos, Pondé distorce conceitos como o feminismo, alegando que as feministas não são mulheres e sim “fascistas de gênero”. Destaca-se aqui que comparar Feminismo ao Fascismo é, no mínimo, para alguém que teve acesso e estudou tais assuntos em especifico, como foi o caso do Pondé, irresponsabilidade.

Fascismo se vincula ao Estado Totalitário, autoritário e nacionalista, dado em determinado período histórico e vinculado à grupos Hegemônicos, enquanto Feminismo não se vincula diretamente à nação e extrapola modelos de Estado, além de se relacionar a um grupo não hegemônico da sociedade. A única palavra que pode ser comum aos dois, talvez seja a “radicalidade”, que, nesse caso aponta mais ainda a distância entre dois conceitos, pois a radicalidade do feminismo vem na ideia de que “homens e mulheres são iguais”, igualdade essa muito distante de qualquer “princípio” fascista.

Ainda em suas elucubrações distorcidas, além de evidenciar seu profundo e explicito desgosto com a expansão dos Direitos Sociais e Humanos, os denominando pejorativa e ironicamente de “chatos politicamente corretos”, questiona a forma como alguns profissionais de saúde e educação agem frente à diversidade sexual aparente em crianças. Em alguns artigos dá a entender que o transexual deve ter papel de mulher, ficando apenas de quatro em uma relação sexual, e que as feministas querem se meter na cama das mulheres heterossexuais, quando afirma “Quando vamos perceber o fato óbvio de que o feminismo é a nova forma de repressão social do sexo? Principalmente do sexo heterossexual feminino? Ao se meter embaixo do lençóis, essas azedas atrapalham a já difícil vida sexual cotidiana. (…) Segundo nossas fascistas de gênero, as heterossexuais devem ficar sempre por cima para olhar nos olhos do opressor e jamais (preste atenção: eu disse jamais!), ao fazer sexo oral (melhor não fazer), “jamais engolir sêmen, que é excremento como xixi e coco”. É meninas queridas, um dia desses vão prender vocês se gostarem de ficar de quatro ou de “engolir”. A liberdade sexual acabou e em seu lugar nasce a heterofobia.”. Ainda de forma pejorativa se refere às feministas como azedas, fascistas de gênero, heterofóbicas, etc.

Muitos desses posicionamentos não caberão nessa nota, mas eles acabam reforçando estereótipos existentes em nossa sociedade capitalista, de que mulheres devem ser donas de casa, obedientes aos seus homens, de que crianças devem ser educadas dentro da heteronormatividade, de que “moças” devem ser arrumadinhas, depiladas, afinal quando se questiona “Quais seriam os “direitos” em questão da mulher? De ser feia? De disputar o Prestobarba de manhã?”, só pode ser essa a intenção da pessoa. Por todo esse histórico elencado acima, ao saber do convite por alunas do Direito, o DCE, juntamente com a Frente de Mulheres da PUC-Campinas, se reuniu com as estudantes para discutir e organizar uma intervenção durante a mesa. Na mesma reunião foi escrita conjuntamente com as estudantes uma nota de repúdio ao CA XVI de Abril e ao Pondé, que foi entregue aos estudantes presentes no Dom Gilberto, local da atividade. A fim de esclarecer o motivo do escracho, também se fez necessária uma explicação maior sobre o que é ser feminista, e que a auto-organização das mulheres é extremamente importante para a emancipação das mesmas e de nossa sociedade.

O feminismo não é o contrário de machismo, isso é femismo, feminismo quer acabar com uma opressão histórica, não inverter o agente repressor.

Nós, feministas, acreditamos que somente a mulher tem direito de dizer a ela mesma qual a posição sexual que ela mais gosta, o que lhe dá prazer, se ela faz ou não sexo oral, e ainda se ela engole ou não o sêmen de seu parceiro. Nós, feministas, defendemos que é a mulher que deve decidir quantos parceiros ela tem, ou parceiras. Nós, feministas, acreditamos que para conseguirmos direitos iguais, que não temos hoje em dia, é necessária a construção de uma sociedade igualitária entre homens, mulheres, transexuais, gays, lésbicas, travestis, assexuais. Não será um homem, branco, heterossexual, de classe alta que nos dirá o que somos, como devemos, ou não, viver e agir

Fazemos aqui então essa crítica, pois, não fosse a intervenção da Frente de Mulheres da PUC – Campinas e exigência de espaço na mesa, a INDISPONIBILIDADE AO DIÁLOGO apresentada pelo CA XVI de Abril, impossibilitaria a pluralidade e apresentação do contraditório, e perpetuaria as falácias impunes de Pondé que, sem ser questionado, compara o Holocausto Nazista, que matou 6 milhões de Judeus, à uma luta que nunca matou nenhum homem, que é a luta por direito das mulheres. Portanto, a presente carta repudia a estruturação da mesa e escolha do palestrante, tudo isso dentro do questionamento e crítica à inexistência de diálogo com o corpo estudantil na construção de tal espaço. Acreditarmos que os estudantes que devem construir suas próprias semanas de estudo! Sendo necessário pontuar que em todas as mesas da Semana Jurídica somente palestrantes homens foram convidados a participar, mesmo que em nossas salas de aula do Direito tenhamos maioria de estudantes mulheres, o que, não por acaso, reforça a seleção acadêmica dos agentes protagonistas à serem prestigiados e aclamados.

Assim, reforça-se mais uma vez a importância da auto-organização das mulheres a fim de fortalecê-las e incentiva-las a ocupar espaços importantes em nossa sociedade.

Cabendo, por fim, ressaltar o apoio e prestígio à organização e atuação da Frente de Mulheres da PUC-Campinas! Campinas, 25 de Setembro de 2013”

Para participar da página da Frente de Mulheres, acesse: Frente de Mulheres PUC-Campinas

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