Ocupações Urbanas

Atualmente, a cidade de Campinas tem mais de 150 mil pessoas vivendo em várias áreas ocupadas, o que representa uma enorme população que luta pelo direito universal à moradia. A situação desta população é resultado de um modelo econômico industrial que produziu a Campinas de hoje, uma cidade com contundentes desigualdades; um modelo que é baseado, por um lado, na exploração da mão-de-obra de uma significativa massa de trabalhadores e trabalhadoras; e, por outro, na ausência de políticas públicas que atendam as necessidades básicas de reprodução desta população assalariada.

Neste modelo de cidade, a moradia e o usufruto do espaço e de serviços públicos deixaram de ser um direito de todos, passando a ser mercadorias cada vez mais inalcançáveis aos trabalhadores assalariados. Nas décadas de 1950 e 1960, agentes da especulação imobiliária ampliaram sua força política e passaram a orientar as diretrizes para a política de gestão e investimentos nas benfeitorias públicas, priorizando ou restringindo tal política às áreas de exclusivos interesses comerciais, em detrimento das demandas sociais em áreas periféricas, como, por exemplo, casos de saneamento básico e transporte.

Em Campinas, mais acentuadamente a partir da década de 1960, com a intensificação da implantação de indústrias e o aumento da população trabalhadora, as políticas públicas de gestão e uso do solo e de instalação da rede de serviços básicos – como limpeza urbana, postos de saúde e creches – foram desigualmente distribuídas pelo território urbano, valorizando áreas exclusivas e debilitando a expansão e o acesso às moradias populares, de modo que pagar por um imóvel fica cada vez mais difícil, ou impossível, para grande parte das famílias assalariadas.

Por isso, ocupar terrenos vazios – públicos ou privados – para exercer efetivamente o direito fundamental de acesso à moradia é uma forma de luta que vem sendo, legitimamente, realizada pela classe trabalhadora já fazem várias décadas em Campinas.

Contudo, morar é mais que ocupar um lugar; é, acima de tudo, criar vínculos de união e pertencimento; é construir relações humanas de fortalecimento da luta comum pela dignidade e respeito à condição humana. Nesse sentido, ocupar é um processo e ato político de afirmação de um direito, uma forma de luta que expõe, historicamente, a luta de classe, reconhecendo uma forma de ação política que somente se efetiva junto com o outro da mesma classe.

Além disso, como parte da ação auto-organizada de ocupar, resistir e produzir, também é inevitável que se crie espaços de convivência, de modo que se estimule estratégicas sociais de sobrevivência, que se estimule ações cooperativas para se superar as ausências de serviços públicos básicos e fragilidades individuais e familiares.